FANTASIA, POR ELE...


NOITES BRANCAS 

Tive reflexões recentes sobre a fantasia e então escrevi um artigo sobre o tema, de forma despretensiosa. Inclusive, não considero que seja o meu texto mais bem escrito, sinto que, ao falar de fantasia, acabei me perdendo e focando demais na minha profissão. A questão é que ambos os temas se conectam, sim, mas aquele artigo poderia ter se aprofundado mais na fantasia em si. E é isso que pretendo fazer agora.

O que me motivou a reescrevê-lo, ou melhor, a acrescentar novas camadas a ele, foi a leitura do livro Noites Brancas. Eu já sabia que se tratava de um romance filosófico e entrei de peito aberto, esperando algo à altura da entrega que Dostoiévski costuma oferecer. E, ainda assim, fiquei completamente surpresa com o que encontrei. 

Basicamente, minhas próprias questões e pensamentos sobre a fantasia estavam ali, descritos com clareza, como se tivessem saído direto da minha cabeça.

O personagem principal, que nem sequer tem nome, é um homem solitário que costuma perambular pelas noites, imaginando cenários diversos. Observa lugares, pessoas, mas se sente mais confortável prestando atenção na arquitetura da cidade do que nos indivíduos ao seu redor.
Em uma dessas noites em que sai pelas ruas, imerso em suas próprias fantasias, ele encontra uma jovem. E, a partir daí, nada mais será como antes.

O amor devora o coração do nosso personagem. Um homem acostumado a viver em seus devaneios, em seu próprio universo, logo se vê envolvido em uma dinâmica com essa moça, fantasiando um amor entre os dois.

Sabe aquele momento que passa pela sua cabeça enquanto lê? “Poxa vida, um cara solitário, que conheceu uma mulher cheia de luz, com grandes possibilidades de iluminar o vazio da vida dele. Essa é a virada de chave da história. Ele pode, sim, ser feliz.”
Mas, claro, como estamos falando de Dostoiévski, não é exatamente isso que acontece.

Ela está apaixonada por outro. E o que mais me tocou é que, mesmo sabendo disso, ele não a abandonou. Um homem que superava seu orgulho e sua vaidade. É claro que aquilo machucava e muito, mas o fato é que ele não era um covarde. Longe disso. Ele se colocava em posições vulneráveis, abria seu coração e seus sentimentos mesmo sabendo que ela não o correspondia. Porque era, apesar da solidão, um homem honesto. Honesto com seus sentimentos e consigo mesmo.

Um homem fadado à solidão, que ainda assim teve coragem de se abrir para o amor, mesmo sabendo que não seria correspondido. E isso, pra mim, é de uma coragem imensa.

Ao reler algumas passagens e anotar trechos que me marcaram, percebi que o personagem só sobrevive por causa da fantasia. É ela que o mantém em pé, que dá sentido aos seus passos solitários. A fantasia, nesse contexto, é mais do que um refúgio, é a própria vida dele.
A seguir, trago alguns trechos do livro que anotei e resumi durante a leitura e que dialogam profundamente com esse tema. 

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Ele parecia novo. Novo, requintado... e, de certo modo, um doce veneno. Havia algo no seu olhar, algo que deixava claro o quanto desprezava essa vida real. Como se ela fosse um palco desbotado, sem encanto, sem frescor.

Na sua visão, limitada por uma certa pureza encantada, nós, os outros, os que permanecemos do lado de cá do sonho, levamos uma vida arrastada, monótona, vazia. Para ele, somos todos almas cinzentas descontentes com o próprio destino, cansadas da existência. E talvez ele não esteja de todo errado.

É só observar de fora: para quem não sonha, o mundo pode mesmo parecer frio, árido, hostil. Como se tudo à nossa volta fosse feito para nos lembrar da solidão, da falta, da luta. “Coitados”, pensa o sonhador. E, de certo modo, tem razão por pensar assim.

Afinal, a vida concreta raramente nos obedece, não se curva aos nossos desejos, não se molda às nossas vontades. Diferente dos sonhos esses, sim, têm o dom de se renovar, de permanecerem jovens. Dentro deles, nenhuma hora é igual à anterior. Há sempre surpresa, sempre frescor. O tempo nos sonhos não cansa, não pesa.

Já a imaginação, quando tenta sobreviver no mundo real, acaba por se tornar uma coisa triste. Uma fantasia exausta, desconsolada, sensível demais, repetitiva até se tornar vulgar. Fica ali, presa a sombras, às margens da ação, escrava do pensamento. E é aí que o sonhador se distancia, porque, para ele, sonhar ainda é viver e viver, apenas sobreviver.

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Esse trecho fala sobre um personagem que vive mais no mundo da fantasia do que na realidade. Ele enxerga a vida concreta como algo sem brilho, sem frescor e encontra nos sonhos um refúgio, um lugar onde tudo ainda parece possível. Para ele, sonhar é mais verdadeiro do que viver, porque a realidade raramente corresponde aos nossos desejos.

A fantasia, nesse contexto, aparece como um escudo contra a frustração do cotidiano. Mas ao mesmo tempo, ela também pode virar uma prisão: quando tenta existir no mundo real, se desgasta, se torna triste, repetitiva.


Esse sonhador se distancia dos outros porque acredita que, enquanto todos apenas sobrevivem, ele ao menos ainda consegue sonhar.


TAMIRES LIZ. 

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