Tuberculose da alma.



Depois de algumas leituras de Dostoiévski, senti curiosidade e ansiedade para conhecer a obra de Franz Kafka. Minha primeira impressão foi a de uma compensação literária diferente: enquanto Dostoiévski, em sua dramaturgia, usa uma linguagem carregada de termos antigos, que muitas vezes me fazia interromper a leitura para pesquisar e reler, Kafka me trouxe algo mais acessível. Não é uma crítica, Dostoiévski ampliou meu olhar e me fez mergulhar em uma leitura mais complexa, mas senti que era hora de buscar novas perspectivas. A escolha, então, foi Kafka.

Comecei por sua obra mais conhecida, “A Metamorfose”, e literalmente a devorei. A escrita simples e familiar ajudou, mas foi sobretudo o contexto da história e as relações familiares narradas que me fizeram mergulhar profundamente. Como gosto de análises psicológicas, não consigo ler sem me perguntar sobre as motivações por trás de uma narrativa. Pouco conhecia de Kafka, e justamente por isso preferi primeiro me deixar atravessar pelo texto, para só depois pesquisar sobre ele.

Foi nessa pesquisa que descobri “Carta ao Pai”. Ali percebi que poderia conhecê-lo mais de perto: um registro íntimo, quase uma confissão aberta. O que encontrei foi arrebatador. Diante de declarações nada delicadas, Kafka revela ao pai os inúmeros motivos que o afastaram: a falta de afeto, a rigidez brutal e as constantes humilhações que o marcaram desde a infância. A carta mostra como essa relação paterna o transformou em um homem distante, tentando compreender a si mesmo fora do contexto familiar, mas já com uma alma profundamente deteriorada.

Ele relembra episódios, acusa diretamente o pai de sua rigidez, e tenta fazê-lo entender que o resultado de tantas violências foi um filho que cresceu sentindo-se inferior a tudo, à vida, ao amor, à família, a si mesmo. Kafka, aparentemente, escolheu a solidão como uma forma de proteção. Ainda assim, buscava, em suas paixões e noivados, uma aprovação paterna que jamais veio. O pai, diante de suas tentativas de casamento, foi cruel: dizia que ele era “fraco demais, insignificante demais, dependente demais”, incapaz de sustentar uma vida conjugal, e que qualquer mulher estaria se rebaixando ao aceitá-lo. Humilhava também as mulheres que ele amava, por pertencerem a uma classe social inferior.

Esse desprezo foi, talvez, o último golpe em uma vida inteira de recusas. Kafka não se via fracassado por preguiça ou falta de talento, mas porque suas energias estavam voltadas a um combate íntimo, existencial, que consumia tudo. Ele descreve, no trecho sobre o casamento, como essa pressão o aniquilava:


“A partir do momento em que decido me casar, não consigo dormir, a cabeça arde dia e noite, isto já não é vida... o que me atinge de modo decisivo é a pressão generalizada do medo, da fraqueza, do autodesprezo.”


A “Carta ao Pai” foi escrita em novembro de 1919, quando Kafka tinha 36 anos. Ele nunca a entregou, confiou-a à mãe, que não teve coragem de repassar. Quatro anos depois Kafka faleceu em um sanatório perto de Viena, vítima de complicações da tuberculose.

O que fica dessa leitura, para mim enquanto escritora, é a certeza de que é quase impossível escrever sem revelar a nós mesmos. Nossas narrativas, por mais ficcionais que sejam, sempre carregam nossa história, nossas dores e percepções do mundo. Em “A Metamorfose”, por exemplo, vejo ecos claros da vida de Kafka: Gregor, que sustentava a família, ao adoecer e não poder mais servir, é abandonado e descartado. A mensagem é dura, mas real: enquanto somos úteis, somos aceitos; quando não podemos mais sustentar os outros, nos tornamos descartáveis.

Kafka, ao expor suas feridas, não apenas se revelou, mas também criou uma obra que continua a ressoar em cada um que se reconhece nesse espelho de fragilidade humana.


Tamires Liz.

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