Fragmentos.
Um mar de arrependimento ameaça engoli-la. Ela sente, mas não permite que uma lágrima escape: detesta sentimentalismos, recusa-se a admitir a vulnerabilidade. Sua armadura está na própria presença: o vestido preto de detalhes dourados, bordado com lírios delicados; o perfume doce, maduro, que paira no ar; os anéis nas pequenas mãos, cada um único. E a aliança. Sempre a aliança. Quando se banha, e só então a retira, o sol denuncia a marca circular que insiste em permanecer. Como se a própria pele testemunhasse a história que Lúcia jamais conseguiu abandonar.
Em um retrato pendurado no quarto o qual ela avista todas as manhãs da cama ou quando se deixa levar pelo sono, Lúcia se reconhece e não se reconhece. Agora, diante do retorno do passado, aquele quadro lhe dá um ar de confissão: não fui honesta comigo, mas fiz o que tinha que ser feito.
A moldura é marrom, gasta; a fotografia ao fundo a faz recordar a covardia de erguer aquela imagem na parede como quem ergue um muro. Mais próxima da morte do que da vida, ela entende: não era aquele quadro que deveria tê-la acompanhado tanto tempo. Passa pelos seus pensamentos; O carreguei para evitar voltar a lugares não resolvidos. Como uma ferida que nunca fechou, uma membrana da alma que não cicatrizou, apenas foi soterrada pela força do esquecimento.
Com todo esse sangue, Lúcia paralisou. Não reagiu. Permitiu que o sangue, as lágrimas e a saudade a afogassem.
Tamires Liz.
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