O Outro Lado da Prostituição.


Falar sobre prostituição ainda é atravessado por preconceitos profundos, como se as mulheres que a exercem fossem menos dignas ou humanas. Mas, quando se olha de perto, percebe-se que muitas delas encontraram nesse trabalho não um “prazer”, mas um meio de sobrevivência. Sobreviver, aqui, é a palavra central: por trás de cada corpo que se oferece, quase sempre existe uma história marcada por dor, rupturas e traumas.

Boa parte dessas mulheres passou, em algum momento da vida, por violências que as empurraram para a prostituição. O abuso sexual, sobretudo na infância, é um dos traços mais recorrentes. Os números são alarmantes: um estudo publicado na The Lancet em 2025 apontou que 17,7% das mulheres brasileiras afirmam ter sofrido violência sexual na infância ou adolescência. Em 2023, quase 74% das notificações de violência sexual no Brasil envolveram vítimas com menos de 19 anos, sendo 87% meninas, em sua maioria abusadas no próprio ambiente doméstico, por pessoas que deveriam protegê-las.

As consequências desses traumas são devastadoras. Muitas carregam para a vida adulta uma relação fragmentada com o corpo, a autoestima e a sexualidade. Pesquisas da USP mostram que mulheres vítimas de violência sexual têm maior probabilidade de desenvolver depressão, ansiedade e disfunções sexuais, como desejo reduzido, dificuldade de excitação ou orgasmo. Algumas iniciam a vida sexual a partir do abuso, sem associar prazer à experiência; outras, ao contrário, desenvolvem bloqueios, dores e culpas que as paralisam diante do desejo.

Esse retrato coletivo se reflete também em histórias individuais, como a de Andressa Urach, figura pública que expôs sua trajetória marcada por abandono, violência e exploração. Abandonada pela mãe na infância, foi entregue a um casal: o homem, que deveria exercer o papel de pai, a abusou repetidamente. Ao revelar o ocorrido, não foi acreditada pela esposa dele e acabou expulsa de casa. Ainda adolescente, engravidou de um rapaz que a abandonou, ficando sozinha, com um filho nos braços e sem meios de sustento. No trabalho que conseguiu, mal ganhava para sobreviver e ainda era vítima de assédio, até que alguns homens passaram a oferecer dinheiro para dormir com ela. Diante das dificuldades, aceitou e logo percebeu que o que recebia na prostituição superava o salário. Escolheu, então, permanecer nesse caminho, acreditando poder dar ao filho uma vida melhor.

Mais tarde, já conhecida nacionalmente, Andressa passou por um colapso emocional, marcado por excessos de cirurgias e tentativas de moldar o corpo a padrões impossíveis. Buscando ajuda, procurou a Igreja Universal do Reino de Deus, onde foi convencida a doar todos os seus bens como parte de um “sacrifício espiritual”. O que encontrou, contudo, foi discriminação, culpabilização e abandono, perdeu o pouco que tinha e mergulhou novamente em crises profundas.

Sua história ilustra, de forma cruel, como instituições que deveriam acolher muitas vezes reforçam a lógica da culpa, associando mulheres a “hábitos profanos” e negando-lhes o direito à reconstrução.

Esse é o relato de uma mulher que decidiu expor sua vida ao público. Mas e aquelas que permanecem em silêncio, fora das estatísticas, carregando traumas que não conseguem nomear? Acredito que não seja fácil contar, muito menos compartilhar essas experiências. Por isso, tenho profundo respeito por mulheres que vivem dessa forma: não se trata de escolha plena, mas de sobrevivência em um mundo que primeiro as violou, e depois as julgou. Afinal, se não houvesse homens para pagar, a prostituição não existiria e é preciso lembrar que muitos desses homens foram também os primeiros a introduzir essas mulheres nesse destino, quando as violentaram.

Ao olharmos para histórias como a de Andressa e de tantas outras, precisamos lembrar: nenhuma mulher nasce para a prostituição, ela é levada a ela pelas violências que a antecedem. Que o nosso olhar, então, seja de acolhimento, e não de julgamento. Quantas vezes julgamos sem conhecer as feridas que antecedem uma vida? Talvez seja hora de trocarmos a pressa de julgar pela delicadeza de compreender ou, quem sabe, auxiliarmos da maneira que nos cabe.


Tamires Liz.


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