Entre o Pecado e o Silêncio
Foi numa noite qualquer, durante uma insônia danada, que decidi assistir a um documentário. Sem saber muito bem o que procurar, desci a barra e acabei dando play em Fundamentos do Prazer. O título me chamou atenção, e o conteúdo me prendeu. Apesar de leve e descontraído, o documentário é cheio de informação importante. Ele aborda três frentes principais: primeiro, o corpo feminino e sua estrutura fisiológica; depois, como ao longo da história sua função foi definida por homens; e, por fim, discute de forma direta a sexualidade da mulher. À medida que eu entendia esse cenário de opressão, silêncio, medo e abusos, fui chegando a uma conclusão que me rondava há tempos: o silêncio feminino ainda é um dos grandes pesos que carregamos.
Esse silêncio está em muitas áreas da vida da mulher, mas quando se trata de sexualidade, ele se torna avassalador. Desde cedo, nos ensinam que não devemos gostar de sexo, que sentir prazer é errado, que não podemos ter mais de um parceiro ou nos relacionar com alguém fora da heteronormatividade. Sexo é tabu, mas ao mesmo tempo, espera-se que sejamos “sexy”. Não podemos expor o corpo, mas devemos parecer atraentes. É como se o corpo feminino tivesse que atender a regras que mudam o tempo todo e quase sempre feitas pelos homens. Enquanto isso, o homem pode tudo: ele é “naturalmente” impulsivo, “biologicamente” incontrolado. A mulher, por outro lado, precisa ser o oposto: pura, contida, racional. Essa diferença de expectativas é violenta, e pior ainda, se baseia em ideias ultrapassadas que usam a ciência de forma conveniente.
Durante muito tempo, usaram argumentos “biológicos” pra justificar a inferioridade da mulher. No século XIX, por exemplo, alguns médicos diziam que o útero causava “histeria” ou que o cérebro menor das mulheres significava menos capacidade intelectual. Essas teorias, mesmo já desacreditadas, serviram por décadas pra manter as mulheres longe da política, das universidades, dos cargos de liderança e do direito de decidir sobre o próprio corpo. A verdade é que não existe nenhuma comprovação científica confiável que diga que a mulher é inferior ao homem. O que existe, infelizmente, é uma sociedade que ainda trata a mulher como menos em diversos aspectos.
Essa visão aparece de várias formas no cotidiano: na diferença salarial entre homens e mulheres; na desvalorização da fala feminina; na pouca presença de mulheres em cargos de poder e na dificuldade que elas enfrentam quando chegam lá, são interrompidas, desacreditadas, cobradas. E claro, também está presente no julgamento que uma mulher sofre quando decide viver sua sexualidade com liberdade.
A mudança começa quando deixamos de aceitar o silêncio imposto e passamos a escrever nossa própria narrativa. Este texto é um convite, primeiro para você, mulher: que se permita olhar para o seu corpo com mais atenção e carinho. Que busque entender como ele funciona, o que ele deseja, e reflita se suas vontades estão realmente vindo de você ou se foram moldadas por padrões que te ensinaram a seguir. Reconhecer-se, escutar-se e criar a própria história não é motivo de vergonha, mas de coragem.
E para você, homem, que chegou até aqui: que este também seja um convite à reflexão. Repensar atitudes e comportamentos que muitas vezes foram apenas reproduzidos sem questionamento, porque era assim que se esperava que fosse. Mudar exige consciência e a consciência começa quando a gente decide escutar, aprender e fazer diferente.

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