A Infância Esquecida


Um dos privilégios de trabalhar no ramo da arte é a necessidade constante do autoconhecimento. Digo isso porque sou atriz e, em inúmeros processos, é essencial aprender a se conhecer: suas fragilidades, anseios, angústias e dúvidas.

À primeira vista, parece algo maravilhoso. Imagina só, que privilégio poder se conhecer e ainda estar em uma profissão que exige isso para que se entregue um bom trabalho. Mas a verdade é que não é nada confortável se conhecer. É um processo terapêutico, cheio de questionamentos que, no início, nem sempre fazem sentido. É confuso, desconfortável e, às vezes, solitário. Me disseram: "Vai fazendo que uma hora você vai compreender." E até hoje sigo tentando entender.

Um dos pontos mais profundos do autoconhecimento é voltar para si, para a sua criança. E esse foi, sem dúvida, o processo mais doloroso que vivi. Relembrar como você era, seus anseios, vontades, sonhos, ingenuidade, tudo isso traz uma sensação forte de perda. A gente percebe o quanto deixou para trás. Sonhos e certezas que foram desconstruídos não por nós, mas pela sociedade e pelas pessoas que conviviam conosco.

Jean-Jacques Rousseau dizia que nascemos bons, mas é a sociedade que nos corrompe. E é exatamente isso que se sente ao revisitar a infância. Quando éramos crianças, nossa visão de mundo era livre, despretensiosa da opinião dos outros. Mas, ao crescer, nos vemos cada vez mais moldados pelas características de quem nos criou, pelo ambiente em que vivemos. Ideias, valores e medos que não eram nossos, mas que foram colocados dentro de nós. Chegar nesse ponto, se olhar no espelho e não reconhecer quem você se tornou, é assustador. É perceber que muita coisa foi deixada no caminho, inclusive nossa autenticidade.

Sócrates já dizia: “Conhece-te a ti mesmo.” Parece simples, mas é um dos caminhos mais difíceis. Porque se conhecer de verdade exige coragem para encarar tudo que foi silenciado, esquecido ou suprimido em nome de um ideal social. É como Nietzsche afirmava: a necessidade de se libertar dos valores impostos e construir os próprios, tornar-se quem se é.

Para deixar mais claro, vou citar um exemplo: o filme A Baleia. O personagem Alan não conseguiu integrar sua identidade sexual com os valores espirituais que aprendeu em uma fé cristã extremamente rígida. A culpa e a vergonha, impostas pela religião, devastaram sua saúde mental. Isso o levou a uma depressão profunda. Acreditava que jamais seria aceito "como era" nem pela fé que seguia, nem pela família, nem pela sociedade. E isso o consumiu por dentro. Alan morreu por suicídio.

Ok, talvez tenha usado um exemplo pesado, mas ele resume exatamente o que estou tentando dizer: passar pelo processo de autoconhecimento, como Alan passou ao tentar viver suas verdades, é profundamente doloroso. Ele passou a vida inteira acreditando em ideias impostas, ideias que negavam quem ele era. E, quando finalmente se permitiu enxergar, o conflito entre o que sentia e o que aprendeu o levou a um lugar de culpa e sofrimento.

Concluir esse processo talvez nunca seja possível por completo e tudo bem. A verdade é que o autoconhecimento não tem um ponto final; é um movimento constante de escuta e reconexão. Não se trata de voltar ao passado, mas de acolher quem fomos para entender quem somos.


Tamires Liz. 

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