Fantasia
Estive refletindo sobre as fantasias que rondam meus pensamentos. E são muitas. Vão de amores a cenas banais do dia a dia. Curioso perceber que isso nunca se perdeu em mim. Sobrevive desde o coração daquela mini Tamires de outros tempos.
Na adolescência, entrei em conflito com isso. É a fase em que te colocam no jogo do certo e errado, de como você deve ser, pensar e agir. E, aos poucos, você começa a desacreditar das próprias ideias, a silenciar seus conceitos, porque percebe que eles não se encaixam na tal “normalidade”.
Ainda assim, a fantasia nunca deixou de ser meu lugar seguro. Meu refúgio. Passo horas criando situações, conversas, histórias às vezes possíveis, às vezes completamente surreais. E, claro, nem sempre é fácil perceber que a realidade não acompanha essas fantasias.
E olha só... talvez não seja coincidência eu ter escolhido ser atriz. Uma profissão que, assim como eu, habita entre o real e o imaginário. Só que, vamos ser sinceros, não tem nada de romântico nessa escolha.
É desafiadora em muitos sentidos. Primeiro, pela questão financeira. Se você não vira uma celebridade, a chance de ter estabilidade é mínima. E, infelizmente, dinheiro é a base da sobrevivência. Se você não tem uma família estruturada, que te acolha quando falta até o básico, sua luta é dobrada. É sobreviver na vida e na arte ao mesmo tempo. E, aqui, sobreviver tem muitos significados.
Na profissão, além das questões materiais, vêm os outros pesos: comentários cruéis, olhares julgadores, exigências absurdas e, sim, assédios disfarçados de oportunidade.
— “Tá magra demais.”
— “Engordou, né?”
— “Você não é bonita o suficiente pra esse papel.”
— “Quem é seu pai mesmo?”
— “Onde você estudou?”
— “Quais os trabalhos que você já fez?”
— “Canta? Dança? Toca algum instrumento?”
Ser atriz exige ser quase uma artista multimídia. Ter mil habilidades, falar línguas, tocar instrumentos, dançar, entender de tudo. E ainda saber se esquivar dos assédios e das armadilhas emocionais. Claro, sem perder a cabeça.
O que quase ninguém te conta é que tudo isso está diretamente ligado ao acesso. E acesso está diretamente ligado ao capital. Se você vem de uma família que precisou lutar pela sobrevivência, que dependeu do ensino público a vida inteira, é bem provável que não tenha tido acesso a cursos, idiomas, música, teatro, esportes específicos.
As pessoas mais “completas” no mercado quase sempre são aquelas que tiveram acesso desde cedo. E, sim, é cruel. Porque, quando você não tem, a caminhada se torna mais longa, mais difícil, mais cansativa. Porque aí não é só sobre talento, é sobre resistência.
E olha... se tem uma coisa que eu me recuso é me colocar no lugar de vítima. Jamais. Mas é essencial ter consciência disso. Ter clareza sobre os próprios processos, sobre a própria história. E, principalmente, entender que não dá pra se comparar quando as comparações não são justas.
Lembre-se de onde você veio. Das dores que atravessou. Do quanto precisou caminhar até aqui. Honre isso. O lugar onde estou hoje talvez não seja o auge, mas é exatamente onde, há dois anos, eu sonhava estar. E se tem algo que aprendi é: dificilmente é só sobre talento.
Acho que me perdi... estava falando sobre fantasia, né?
Mas, no fim, tudo se conecta. Minha escolha profissional tem tudo a ver com isso. Sempre vivi meio fora da órbita. E talvez por isso escolhi um caminho onde fosse possível habitar minhas fantasias e, quem sabe, transformar algumas delas em realidade.
E, no fundo, talvez o grande ato de existir seja esse: equilibrar o real e o imaginário. Seguir fantasiando e na medida do possível, continuar.
Tamires Liz.

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