Crescer é
No meu artigo anterior, escrevi sobre a infância esquecida, uma reflexão sobre como, ao longo da vida, vamos perdendo partes importantes de nós mesmos. O que antes fazia sentido se desfaz, e aquilo que um dia preencheu nossas experiências dá lugar a outras demandas, nem sempre compreendidas ou desejadas.
A vida é, muitas vezes, um percurso desconcertante. Ela muda de direção de maneira inesperada, sem lógica imediata. Passamos por situações que nos fazem questionar: por que isso está acontecendo comigo? Demoramos dias, semanas ou meses para processar determinados acontecimentos. E, eventualmente, eles voltam sob novas formas com outras máscaras, mas despertando sensações familiares. A diferença é que, com o tempo, desenvolvemos recursos emocionais para enfrentá-los com mais clareza e menos espanto.
Esse aprendizado, no entanto, não é linear. Em alguns momentos, escolhemos não enfrentar. Fingimos que nada está acontecendo para preservar um conforto momentâneo mesmo que esse “conforto” signifique a manutenção de relações, espaços ou dinâmicas que nos ferem. Permanecemos porque é o conhecido. E o conhecido, ainda que doloroso, parece mais seguro do que o desconhecido.
Mas chega um ponto em que fugir deixa de ser uma opção. Encarar a realidade passa a ser uma exigência especialmente quando assumimos a responsabilidade da autonomia, da consciência e do compromisso com a nossa própria história. E isso na prática é assustador. Dá medo. Muito medo. Mas aí a gente aprende a ir com medo mesmo.
Falar sobre coragem pode parecer simples. Mas agir com coragem, diante de situações reais, é outra coisa. Recentemente, precisei intervir diante de um policial que abusava da própria autoridade. Eu, uma mulher jovem, com aparência adolescente, me vi obrigada a enfrentar uma cena para a qual jamais havia me preparado. A indignação foi maior que o medo. E ali compreendi, mais uma vez, que a vida exige posicionamento.
A existência é dura. Ela nos leva a lugares extraordinários, mas também nos coloca de joelhos. É como uma montanha-russa: nos instantes de euforia, tudo parece fazer sentido. Mas na queda, é preciso ter firmeza. E quando se é mulher, isso ganha outras camadas. A gente precisa se armar mais, se proteger mais, sobreviver em dobro.
Compreendi, ao longo do tempo, que crescer é assumir responsabilidades que antes pareciam invisíveis. Que amadurecer não deixa espaço para o vitimismo constante, nem para a ingenuidade confortável. A vida exige que a gente tome decisões, enfrente dores, sustente consequências.
Escolher se posicionar diante da vida é um ato de coragem diária. E, mesmo com medo, seguimos. Porque permanecer não é sempre possível. Porque calar nem sempre é justo. Porque crescer, afinal, é continuar.
Tamires Liz.
Não sei se esse texto fez sentido. Foi o único que realmente me fez pensar duas vezes antes de postar. Ele tem significado para mim, mesmo sabendo que não estou no meu melhor estado emocional. Estou me permitindo ser vulnerável. Espero que faça sentido para você ou, se não fizer, tudo bem também.
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