A solidão de quem cuida

Ainda não fui mãe. E talvez por isso mesmo eu tenha conseguido enxergar o que tantas vezes passa despercebido até pelas próprias protagonistas dessa história: a mulher, ao se tornar mãe, começa a desaparecer.

Desaparece aos poucos. Primeiro é o corpo que muda, e com ele os olharesos que antes desejavam, agora desviam. Tudo passa a girar em torno do outro: o bebê, a criança, o ser que precisa viver. E para isso, a mulher, aquela que existia antes, vai sendo deixada para trás, aos poucos, sem que ninguém pare para notar ou pior: sem que ninguém se importe.

Durante muito tempo observei as mulheres à minha volta, acompanhei gestações e ausências, cheguei perto do cansaço, da solidão, do desespero silencioso de quem precisa dar conta de tudo, mesmo quando tudo está em ruínas.

A solidão, aliás, é uma companheira íntima da maternidade. E quando olhamos para os dados, percebemos o óbvio: boa parte das mães brasileiras gesta e cria seus filhos sozinhas. Há pais que sequer registram, outros que registram e somem, outros que estão presentes, mas nunca disponíveis. E a mulher, essa figura mitológica de força, se arrasta entre noites mal dormidas, leite, fraldas e culpas.

Vi muitas mães adoecerem sem serem notadas. Perderem sua confiança, autoestima, vitalidade. 

Ainda que eu não tenha sido mãe biologicamente, fui e sou cuidadora. Cresci envolvida em processos familiares complexos, e acabei participando diretamente da criação das minhas sobrinhasCom o tempo, me vi responsável por algo ainda maior: a construção emocional delas. Ensinei o que era o cuidado com o corpo, o respeito aos próprios limites, o valor da palavra. Criei um espaço onde elas pudessem se expressar sem medo, onde o erro fosse aprendizado, e não punição. Sempre repeti que ali, comigo, poderiam ser o que quisessemsem vergonha e sem silêncio.

Lembro do dia em que me irritei com uma atitude infantil de uma delas e soltei: “Para de fazer isso, você parece uma criancinha!” e ela era. Aquilo me atravessou. Desde então, comecei a olhar com mais paciência, mais escuta e descobri; as crianças não são cópias moldadas ao nosso gosto: elas apenas refletem o que recebem, o que veem, o que sentem. 

Ser cuidadora me ensinou que ninguém está realmente pronto para criar alguém. Ninguém nasce sabendo como educar, proteger, não há manual, nem garantia de acerto. A maioria dos adultos apenas repete o que viveu e com sorte, tenta corrigir o que doeu. 

Como podemos ensinar alguém a lidar com o mundo se ainda não conseguimos nomear as nossas próprias dores? Como orientar escolhas se nunca tivemos liberdade para escolher?

E nessa entrega, nessa dança constante entre ensinar e aprender, a mulher essa que gesta, alimenta, guia, vai se esquecendo de si. Não por querer, mas por necessidade. Porque há tantas coisas para compreender sobre o outroo filhoque seu próprio processo fica em suspenso. Ela pausa sonhos, adia vontades, reprime dores. 

Mas quem é que vê essa pausa? Sempre se procura um colo de mãe. Sempre se espera que ela esteja láfirme, forte, inteira. Mas quem dá o colo à mãe? Quem segura sua mão quando ela está frágil? Quem ouve seu choro abafado no fim do dia? Quem cuida de quem cuida?

Essas perguntas não têm respostas fáceis, mas precisam ser feitas. Porque a mulher que cuida também precisa ser cuidada. Porque maternidade não deve ser sinônimo de abandono de si. Porque por trás da mãe existe uma mulher que também sonha, que também sente, que também precisa. 

Cuidar da mãe é também cuidar da criança. 


Tamires Liz. 



"Eu sou o que me foi dado ser e ser mãe é ser sombra e luz de um outro ser, é perder-se para encontrar um amor que dói."

(Clarice Lispector)

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