Um Cinema na Madrugada.
Reflexões sobre Afeto e Ação Social.
Nunca olhei para uma pessoa em situação de rua da mesma forma depois de ouvir a história de um amigo. Ele havia se perdido nas drogas, vagando por São Paulo sem rumo, sem memória, sem direção. Foi acolhido, ouvido e protegido, não por instituições públicas, mas por aqueles que também viviam nas calçadas da cidade. Aquilo me atravessou de um jeito irreversível.
A partir daquele dia, passei a observar as pessoas em situação de rua com mais atenção. Um desejo antigo começou a pulsar; O de atuar em alguma frente social. Não sabia bem como, nem por onde começar. Só sabia que queria estar próxima, entender, contribuir com algo mais do que apenas doações pontuais.
Foi então que, durante um curso livre promovido pelo Museu da Língua Portuguesa, conheci um espaço coletivo. Localizado no bairro da Luz, região conhecida por abrigar uma das maiores populações em situação de rua de São Paulo, a chamada “Cracolândia” esse espaço reúne um acervo de filmes e realiza sessões de cinema ao ar livre, voltadas especialmente para quem vive nas ruas.
O projeto vai muito além de exibir filmes: ele oferece acolhimento nas madrugadas mais solitárias da cidade. Distribui itens básicos, compartilha afeto e promove ações de redução de danos voltadas aos usuários de drogas. O que mais me encantou, foi a iniciativa de oferecer oficinas e cursos para os moradores, ensinando desde operação de câmera, luz, até atuação e presença cênica.
Escutei ali relatos emocionantes de pessoas que, apesar de ainda viverem nas ruas, estão encontrando no projeto um caminho possível de transformação.
Vi olhos acesos, vi dignidade sendo restaurada, vi histórias sendo resgatadas.
É sempre importante lembrar: ninguém está na rua porque quer. Estar em situação de rua é, quase sempre, o resultado de uma sequência de rupturas; com a família, com o trabalho, com a saúde mental, com as estruturas de cuidado. A rua não é uma escolha, é o último recurso. E, com o tempo, se torna um lugar que endurece, silencia e desumaniza.
Enquanto políticas públicas falham e a sociedade se acostuma a desviar o olhar, pequenos gestos de humanidade seguem acendendo luzes nas esquinas da cidade. O cinema naquela praça não resolve tudo, mas resgata o essencial: o direito de existir com dignidade.
Tamires Liz.
CINE FLUXO: https://www.instagram.com/cine_fluxo/
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