O homem, o galo e uma semana.



A primeira semana de Agosto chegou desafiadora.

Momentos de solidão, pensamentos dispersos, cansaço, exaustão, melancolia. Foi nesse cenário que tive o inesperado prazer de conhecer um homem que mudaria a narrativa dos meus próximos dias. 

Criei coragem para sair de casa e ir à feira. Queria tomar um caldo de cana e aproveitar as poucas frestas de sol que atravessavam as calçadas. Aos poucos, fui me animando com as pequenas amizades do lugar: o gosto doce das frutas, os sorrisos trocados, a comunicação endoidecida dos feirantes, os cachorros que acompanham seus donos sem entender aquele turbilhão de vozes, cheiros e barulhos, especialmente o de peixe, que deve soar ainda mais confuso para eles.

Comprei minhas frutas: pera, banana, uvas e a minha favorita, mexerica que, como descobri, em muitos estados recebe nomes diferentes, que nunca tinha ouvido em São Paulo. Resolvi comer meu pastel em casa. No caminho, decidi mudar de trajeto. Tenho o hábito de pegar mudas de plantas pelas ruas, mas já havia coletado todas no percurso de sempre. Assim, entrei em ruas aleatórias em busca de novas.

E foi nesse desvio que encontrei um Senhor. Seu olhar angustiado me chamou a atenção: ele retirava móveis de uma casa e os colocava na rua. Eram peças antigas, de madeira robusta; quem frequenta a feira de antiguidades do Bixiga sabe do que falo. Curiosa, me aproximei para perguntar:
— São para doação? Venda? Restauração?


Ele me respondeu com simplicidade: 

Eram dele, mas estava doando. 

Estava sendo despejado.

O Senhor havia morado ali após a morte de um amigo idoso, dono da casa. A família do idoso, que nunca aparecera, ressurgiu de repente e decidiu alugar o imóvel. Assim, ele se viu sem destino apenas com seus pertences e um galo.

O que mais me comoveu não foi o despejo em si, mas a forma como ele falava. Apesar da dor no olhar, dizia com serenidade que havia usufruído do tempo naquele lar, que a vida era assim, e que não gostaria de deixar tudo na rua, mas não havia opção. E, no meio desse caos, sua maior preocupação não era os móveis. Era o galo. Não queria deixá-lo solto, vulnerável, sujeito a morrer ou ser levado por alguém.

O material não tinha importância; a vida do galo, sim.

Propus, então, que ele me desse alguns móveis, me ajudasse a levá-los até minha casa, e em troca eu  cuidaria do galo até que ele encontrasse um lugar para si, além de contribuir com um valor simbólico pelos móveis.. Ele aceitou. Descobri, nesse processo, um homem afetuoso, grato, de fala doce. Não reclamava, não se endurecia, apenas se mostrava grato por ver seus móveis indo para alguém que cuidaria deles.

O caso do galo, porém, foi mais delicado. Minha vizinha, passivo-agressiva, reclamou de sua presença e ameaçou me denunciar. Para evitar confusões maiores, precisei devolvê-lo ao senhor. Foi frustrante, mas não apagou o essencial: a experiência de dois humanos que se ajudaram e se reconheceram.

Na primeira semana de Agosto, descobri que mesmo em dias cinzentos é possível encontrar calor.
Não foi pelos móveis, mas pelo reconhecimento mútuo. Foi um encontro improvável que me devolveu a humanidade num momento em que eu já não acreditava tanto nela.

Ele não disse com todas as letras, mas foi como se dissesse:
‘Fazia tempo que eu não era visto. Hoje, fui.’


Às vezes, o maior afeto é

simplesmente enxergar o outro.

Talvez o maior presente que se pode dar.


Tamires Liz.



Para um amigo que talvez eu não veja de novo.
Que Oxalá abençoe o teu caminho.

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