O que você descobriria se escrevesse?


Vivemos cercados por estímulos, discursos e narrativas prontas. Somos constantemente atravessados por opiniões, expectativas e versões sobre o que deveríamos ser. Escrever sobre si é sair da superfície e mergulhar.

Muitas pessoas evitam esse movimento da escrita. Escrever, para alguns, é exposição ou desnecessário. Para outros, é confronto. Porque escrever sobre si exige atravessar camadas que preferimos manter organizadas.

Talvez a melhor forma de compreender o poder da escrita seja compará-la a uma fotografia. Quando revisitamos uma imagem antiga, não vemos apenas o que está enquadrado. Percebemos nuances de olhar, tensões no corpo, expressões que no momento passaram despercebidas. A fotografia nos devolve um fragmento bruto da nossa própria história.

A escrita faz o mesmo, mas com mais profundidade. Ela não registra apenas a imagem; registra o que ainda não sabemos nomear.

Desde a infância, escrevo. Não com técnica apurada ou pretensão literária. Escrevia porque gostava. Poemas, fragmentos, diários, desenhos acompanhados de palavras. Guardava tudo. Nunca foi sobre publicar, mas sobre registrar.

Anos depois, ao reler esses cadernos antigos, percebi algo inquietante: as dores se repetiam. As perguntas eram semelhantes. Certos padrões já estavam ali, ainda que imaturos na forma. A escrita havia capturado aspectos de mim que eu, na época, ainda não compreendia.

Reler a própria escrita é um exercício de deslocamento. É como observar a si mesmo de fora. Muitas vezes, precisamos do olhar de um outro para perceber quem somos. A escrita oferece essa possibilidade: cria distância suficiente para análise, mas mantém proximidade suficiente para verdade.

É nesse espaço que reconhecemos qualidades, fragilidades e, sobretudo, padrões. E reconhecer padrões é o primeiro movimento de consciência. 

Escrever sem a obrigação de ser brilhante ou tecnicamente correto é essencial. Quando a escrita se torna performance, ela perde potência. Quando se torna instrumento de investigação, ela revela.

Em determinado momento da minha vida, estabeleci um exercício simples: acordar e escrever sem filtros, antes mesmo de organizar os pensamentos. Durante uma fase de conflito emocional, escrevi uma frase que me surpreendeu: “Eu não quero mais estar nessa situação. Eu o odeio. Eu nem o amo mais.”

Não foi uma conclusão racional, foi um atravessamento. Algo que já estava decidido internamente, mas que minha consciência ainda resistia em admitir.

A escrita antecipou a lucidez.

Freud dizia que o inconsciente encontra meios de se expressar mesmo quando tentamos silenciá-lo. Ele escapa nos lapsos, nos sonhos, nas associações livres. Talvez a escrita funcione como esse território onde o que estava reprimido encontra passagem. A página, nesse sentido, torna-se um espaço de associação livre, onde a verdade emerge antes que o ego a edite.

Esse é o ponto central: muitas vezes não sabemos o que pensamos até escrever. A escrita organiza o invisível e expõe aquilo que a consciência tenta adiar.

Por isso, proponho um exercício simples: durante quinze dias, escreva pela manhã, sem edição, sem revisão, sem intenção estética. Apenas escreva. depois, releia. O que emerge desse processo costuma ser mais honesto do que qualquer reflexão cuidadosamente planejada.

No entanto, é preciso dizer: esse caminho não é confortável.

Escrever sobre si exige confrontar desejos reais, abandonar narrativas convenientes e revisar escolhas feitas por medo ou hábito. A consciência traz clareza, e clareza traz responsabilidade.

Mas há algo libertador nisso.

Se, como afirmava Freud, o “eu não é senhor em sua própria casa”, escrever é uma forma de percorrer os cômodos que evitamos visitar. É permitir que o que estava escondido tenha existência.

Para mim, a escrita deixou de ser apenas expressão. Tornou-se instrumento de autoconhecimento. Foi, em muitos momentos, o único espaço onde pude exercer honestidade plena comigo mesma.

Sem honestidade interna, resta apenas representação.

E eu já não tenho interesse em representar; nem para o mundo, nem para mim. E você?


Tamires Liz.

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